[Literatura] Ódio é ódio?

Diogo tem algumas semelhanças com Hitler. Seus pais são primos em segundo grau, ele tem três irmãos – não se dando bem com nenhum deles -, e, quando jovem, achou que poderia viver de suas pinturas.

Como se vê, as semelhanças são tão sutis que ninguém nunca nem nota.

Mas era no curso de medicina da Universidade Federal, em que lecionou para três turmas todo semestre por décadas, que Diogo era mais comparado a um tirano. Muitos alunos prefeririam ter tido aula com o próprio Hitler. De cada turma de quarenta alunos que recebia, reprovava pelo menos dez. Xingava muito em sala de aula, não havendo um único dia em que alguém não fosse chamado de burro, cavalo, demente, imbecil e aluado. Tudo numa mesma aula. As provas eram impossíveis de serem terminadas. Para tirar um oito, nota máxima que ele deu na vida, o aluno tinha que analisar dezenas de casos e acertar praticamente todos.

Quanto às diferenças, essas são bem mais claras. Ao contrário do mais famoso assassino e tirano do séc. XX, Diogo salva dezenas de vidas por mês. Trabalhou por muitos anos num hospital público como médico cirurgião, num regime de quarenta horas semanais, e salvou bem mais de mil vidas com suas habilidosas mãos.

Diogo também tinha muita facilidade com as mulheres. Seu lema por mais de uma década foi: não menos que 5 conquistas por mês. Quando a idade foi chegando, resolveu reduzir a meta, a tal ponto que quando se aposentou do hospital e da universidade já só bastavam duas conquistas mensais.

De um detalhe ninguém duvidava e nem duvida: ele é um gênio. Os alunos o odiavam, reclamavam e desejavam a ele toda espécie de mal. Mas, ao mesmo tempo, se matavam para conseguir uma vaga próxima a ele nos hospitais.

Hoje ele não dá mais aulas e nem trabalha mais em hospital público. Aposentou-se das duas funções. Quem quiser seus serviços agora só pagando caro.

De seu tempo de professor, uma aluna lhe marcou bastante. Foi Maria, a única que lhe desafiou seriamente em todos os anos em que deu aula.

Maria não era como as jovens a que ele estava acostumado a lidar na faculdade. Era já mulher formada, muito bonita e bem esperta quando decidiu, após muitos anos de advocacia, que seria médica. Seu fascínio com a medicina começou de uma forma meio torta: suspirava sempre que via George Clooney no seriado Plantão Médico. Seja como for, a vontade de fazer medicina foi crescendo e crescendo até que tomou conta dela.

Como fez com muitas outras alunas bonitas e espirituosas, Diogo, tão logo conheceu Maria, partiu para o ataque tentando conquistá-la. Mas a mulher não era fácil, e, ainda por cima, gostava de uma boa briga e sabia de seus direitos.

Primeiro ela o procurou exigindo (o verbo que ela usou foi esse mesmo: “exigir”) que ele fosse mais educado em sala de aula. Como ele não deu a mínima para a reclamação, ela formalizou o descontentamento dos alunos junto à universidade. Não deu em nada. Ou melhor, deu sim: ela foi reprovada pela primeira vez.

No semestre seguinte ela gravou trechos da aula dele, notadamente aqueles em que ele xingava descaradamente os alunos, e levou o problema mais uma vez às instâncias administrativas da universidade. Diogo não foi punido, nem uma advertência sequer, e ela foi, mais uma vez, reprovada.

Já cursando a matéria pela terceira vez, e depois de tantas investidas dele, acabaram namorando por dois meses. Dessa vez, a dor de ser reprovada no final do período foi pequena. Difícil mesmo foi ter sido traída e trocada por uma aluna quinze anos mais jovem.

Quando já se preparava para ver a matéria pela quarta vez, teve a indesejável surpresa: Diogo se aposentara.

O ser humano médio ficaria feliz de não precisar estudar novamente com um professor que já lhe reprovou três vezes. Mas não nossa intrépida protagonista. Já não se tratava apenas de se formar, era uma questão de honra prejudicá-lo de alguma forma. O amor que ela nutria por ele transformou-se em profundo ódio.

Quase reprovou pela quarta vez, de tanto se preocupar numa maneira de finalmente afetá-lo. Acabou por encontrar uma ideia.

O calcanhar de Aquiles de Diogo é o mesmo da maior parte dos seres humanos: o bolso. E ela, depois de muito pensar e um pouco pesquisar, descobriu como atingi-lo bem aí.

Tanto no hospital como na universidade o regime de contratação dele era de quarenta horas, e agora ele estava aposentado pelos dois cargos. A Constituição Federal estabelece os casos em que alguém pode ocupar dois cargos públicos, sendo uma das hipóteses que um cargo seja técnico e o outro de magistério. Ocorre, entretanto, que a Constituição exige compatibilidade de horários, sem, no entanto, dar maiores explicações sobre isso. O Tribunal de Contas da União entende que a incompatibilidade de horários é presumida se a soma dos vínculos ultrapassa sessenta horas. Um outro detalhe é que o TCU faz exame da legalidade dos atos de aposentadoria.

Sabedora dessas informações, ela denunciou a situação de Diogo ao TCU. Se mantida a jurisprudência administrativa, ele teria que abrir mão de uma das aposentadorias ou ter uma delas reduzida ao regime de vinte horas.

Sua torcida ia ainda mais distante. O ato de aposentadoria é ato complexo, que só se aperfeiçoa depois do exame do TCU. Se essa análise fosse feita antes de cinco anos, ele poderia determinar a ilegalidade do ato sem nem mesmo dar ao interessado a chance de se defender. Pois bem, Maria queria que essa análise fosse rápida, para que Diogo fosse informado já diretamente da perda financeira, sem nem poder apresentar sua visão dos fatos.

O tempo passou. Muitas flores nasceram e murcharam até que o tribunal de contas analisou as aposentadorias. E deu a lógica: Diogo teria que abrir mão de uma ou enquadrar-se num regime de vinte horas.

Ele no mesmo dia recebeu duas cartas: uma informando da decisão e outra de Maria, que trazia como anexo o pedido que ela tinha apresentado já há vários anos.

Diogo ficou transtornado. Não era só o dinheiro a menos no mês que lhe irritava. Aliás, isso era o que menos doía, já que grana não lhe faltava. Incomodava mesmo era estar aposentado já há mais de cinco anos e só agora dizerem que ele não podia acumular os cargos que acumulou a vida toda. Onde estava a segurança jurídica? E essa tal de prescrição e sua irmã decadência? Nada disso se aplica a ele?

Passou a nutrir por Maria um profundo ódio. Era a primeira vez que um aluno conseguia realmente atingi-lo. Procurou um advogado e, a princípio, ele dizia que Diogo tinha razão. Passados mais de cinco anos, o TCU só poderia avaliar a legalidade de um ato de aposentadoria e decidir de forma a prejudicar o beneficiário se fosse oportunizado o contraditório e a ampla defesa.

O advogado prometeu preparar a inicial e ligar de volta. Não preparou a ação, mas ligou. Disse que no caso o TCU tinha acertado. O prazo de cinco anos só começa depois que o ato de aposentadoria chega no TCU para ser avaliado. A universidade demorou um ano para enviar o ato. O tribunal analisou com quatro anos e nove meses que a questão já lhe tinha sido posta. Assim, não avaria ilegalidade. O contraditório e a ampla defesa não foram feridos, mesmo já tendo se passado tanto tempo.

Alguns dizem que o ódio é o sentimento mais próximo do amor. E nesse caso foi bem isso que aconteceu. Depois da vingança plena, Maria e Diogo passaram a se encontrar. Ela já médica formada, já com algum renome. Ele, menos mulherengo, já que não contava mais com o manancial de alunas da universidade.

Assim como Hitler e Eva Braun, casaram-se numa cerimônia modesta e quase secreta. Entretanto, ao contrário daqueles, tiveram ainda muitos anos de vida e de plena felicidade.

Nem sempre ódio é ódio. Pode ser só amor.

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