Economia da Páscoa

Deu no noticiário. O preço do açúcar caiu 11% nos últimos 12 meses. O valor do cacau também diminuiu no mesmo período, ficando 12% mais barato. Mas os ovos de páscoa estão quase 7% mais caros.
Por quê?
David não via uma resposta satisfatória para essa sua pergunta no noticiário econômico. Só diziam que o ovo de páscoa era insubstituível e que por isso ele não seguia a lógica dos mercados. Alguns sublinhavam também que as crianças não se importam com os preços e que não dá para dar uma barra de chocolate para elas.
Essa situação criou profunda revolta em David. Podem os homens ser tão maus? A cobiça humana não tem limites?
Embora já lhe tivessem ocorrido na adolescência algumas inclinações socialistas, o tempo e os livros de George Orwell cuidaram de tirar dele qualquer ânimo de defender algo diferente do capitalismo. Nem a morte de Hugo Chávez lhe causava mais qualquer sentimento especial.
Assim, sem entusiasmo e doutrina para iniciar uma revolução, resolveu montar sua própria revolta contra esses ovos inflacionados.
Armou-se com a seguinte ideia: faria seus ovos de chocolate em casa. Podia não ter lá grandes dotes culinários, mas faria seu melhor. Seus sobrinhos e sua namorada entenderiam e ficariam felizes em saber o trabalho artesanal dele. Para os demais daria uma barra de chocolate seguida de uma explicação econômica.
Começou a por em prática seu plano no Domingo de Ramos. Perdeu o dia inteiro comprando fôrmas, barras de chocolate e plásticos coloridos. Passou a semana estudando como fazer os ovos. Resolveu fazer um teste na Sexta-Feira da Paixão, mas não provou o chocolate porque estava jejuando.
No Sábado de Aleluia finalmente conseguiu deixar os ovos num formato aceitável e passou então a trabalhar nas embalagens. Foi clássico e sexista: corações para a namorada, rosa para a sobrinha e azul para o sobrinho.
No Domingo de Páscoa, após o almoço com a família, fez uma explicação para os sobrinhos acerca do significado religioso da Páscoa, da importância da ressurreição de Cristo e o significado de se presentear com ovos de chocolate. Nada disso adiantou. Patrícia, a sobrinha, com seus 8 anos, disse que queria um ovo da Barbie, mas que o ovo de David tinha ficado bonito. A grande decepção veio ao abrir as metades e não encontrar nada dentro. Felipe, com 6 anos, teve uma decepção ainda maior. Ele disse que queria um Hot Wheels. David não fazia a menor ideia do que era isso e precisou pedir explicações a seu cunhado.
Foi então que nosso protagonista entendeu que a Páscoa virara para as crianças um segundo Natal. Sem presentes não tinha graça. E ele que tinha ficado preocupado em explicar aos sobrinhos que a Páscoa não era só chocolate…
Com a namorada, Camila, foi um pouco melhor. Ela ficou feliz com o trabalho que ele teve para construir o símbolo pascal, mas o gosto do chocolate não ajudou. Chocolate puro e simples para ela era enjoativo, não tinha graça nenhuma. Chocolate tinha que ter amendoim, flocos de arroz ou qualquer outro elemento para deixar a mastigação mais divertida e o sabor menos enjoativo.
3 dias depois da Páscoa o ovo que David deu a Camila ainda estava quase intacto, não fossem por umas duas mordidas. Ela disse que gostou, mas não quis comer todo o chocolate que ganhou logo de uma vez para não engordar.
A resposta foi educada, mas a situação mexeu com ele.
Passou a noite sem dormir bem e tomou uma resolução: compraria ovos pela metade do preço nos saldões e deixaria todos felizes. Não daria maiores explicações, só faria a aquisição e entregaria os pacotes.
Nesse momento não deixou de observar que gastou dez vezes mais tempo e três vezes mais dinheiro com suas trágicas ideias revolucionárias do que se, antes da Páscoa, tivesse simplesmente feito como todos: ido ao supermercado e comprado os ovos quase 7% mais caros produzidos com ingredientes principais deflacionados.
Foi mais difícil do que imaginava, mas adquiriu os ovos tardios num hipermercado. Com um sorriso amarelo ele fez as entregas e todos entenderam o ato, ainda que desacompanhado de palavras, como um pedido de desculpas.
Com Camila foi tudo bem, mas com os sobrinhos a situação foi absolutamente constrangedora. O ovos prometiam seus regalos na embalagem mas não tinham nada dentro. As crianças se sentiram duplamente enganadas. Como o tio explicaria que aquilo não era uma brincadeira de mau gosto?
Não tinha explicação. Sua relação com seus sobrinhos estava seriamente abalada.
Procurou um advogado. Queria uma indenização polpuda. Dano material de poucos reais e dano moral de muitos mil reais.
Na audiência de conciliação o réu ofereceu algum dinheiro, alguns brinquedos e muito chocolate. A proposta não foi aceita. O advogado disse a David que a juíza tinha filhos e certamente ficaria sensibilizada com a situação. Nosso protagonista, por sua ótica singular, estava mesmo era interessado em recompor seu patrimônio e arrancar dinheiro dos capitalistas selvagens produtores de ovos de páscoa.
Depois de muitos meses e alguns recursos, já perto da nova páscoa, David recebeu sua indenização: R$ 1.000. Ele sabia que esse valor não abalaria a indústria mercantilista da páscoa, mas foi o suficiente para aplacar seus gastos revolucionários e comprar 3 ótimas Barbies e uma moto elétrica Hot Wheels para Patrícia e Felipe. O resto ele gastou com um jantar dispendioso com Camila.
Na páscoa seguinte comprou ovos no supermercado como todo mundo. Sua consciência estava mais tranquila porque, embora os ovos estivessem mais caros, o açúcar e o cacau também tinham subido.
No natal não comprou o panetone, sua contribuição anual na ceia da família, porque achou o preço abusivo.

  1. #1 by Janiamar on 27/03/2013 - 18:27

    Muito bom…

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